Mary Shelley · Frankenstein
Foi um presente e uma sugestão de um querido amigo. O livro chegou depois de uma longa travessia literária — Dostoiévski, Camus, Kafka, Tolstói — e trazia comigo as marcas de cada uma dessas leituras. Mas nenhuma delas me preparou para o que encontrei. Ou talvez tenham me preparado exatamente para isso.
O que segue é o registro de uma leitura que se tornou diálogo — com o livro, comigo mesmo, com um interlocutor invisível que me ajudou a ver o que talvez não visse sozinho.
Desde os primeiros capítulos, algo me perturbava em Victor Frankenstein. Não era sua ambição desmedida — essa eu reconhecia como humana, quase familiar. Era sua reação diante da criação: "Agora que terminei, a beleza do sonho desvaneceu-se, e o horror e a repulsa enchem meu coração."
Victor não foge da criatura apenas porque ela é hedionda. Ele foge porque ela é hedionda e é sua criação. O horror não está no outro; está no reconhecimento de que aquele outro "saiu de si". A criatura é o espelho que devolve não a imagem que ele esperava — a de um criador adorado —, mas a imagem de sua própria monstruosidade interior.
Ele foge como quem foge de um espelho. E essa imagem — a fuga do próprio reflexo — tornou-se para mim a chave de toda a leitura.
Conforme avançava, uma verdade incômoda se impunha: o título do livro não se refere à criatura. O monstro não é o ser montado com cadáveres; o monstro é o homem que o criou e abandonou.
Victor é monstruoso não por fazer — criar vida —, mas por não fazer: não amar, não cuidar, não assumir. Sua monstruosidade é a monstruosidade da omissão. Ele é o pai que foge — não um pai que bate, que castiga, que oprime, mas um pai que simplesmente não está.
E há algo mais cruel na ausência do que na violência? A violência pelo menos reconhece a existência do outro. A ausência diz: "Você não existe para mim."
Lembrei-me então de "A Metamorfose", de Kafka. Gregor Samsa acorda inseto e é rejeitado pela família. A criatura de Frankenstein acorda montada e é rejeitada pelo criador. Ambos os livros tratam da solidão de quem não se encaixa. Mas há uma diferença cruel: em Kafka, a transformação é mágica, inexplicável — ninguém tem culpa. Em Shelley, a criação tem um responsável direto, e ele foge.
O episódio da execução de Justine foi para mim o momento mais difícil do livro. Victor sabe que a criatura matou seu irmão William. Sabe que Justine é inocente. E escolhe calar-se.
Não é apenas covardia diante da morte. É covardia diante da possibilidade de ser visto como é. Victor prefere que uma inocente morra a ter que explicar ao mundo que criou um ser que não consegue controlar. Seu silêncio é a escolha ativa pela própria reputação em detrimento da vida alheia.
"Pessoas sucumbiram àquilo que ele chama de inquietações." Esta frase — que anotei à margem do livro — expõe a linguagem do privilégio. Victor pode se dar ao luxo de chamar de "inquietações" o turbilhão que destruiu vidas ao seu redor. Para ele, é um incômodo psicológico. Para Justine, foi a forca.
Victor foge para as montanhas para "esquecer suas inquietações". Enquanto ele contempla geleiras, corpos estão sendo enterrados.
No décimo capítulo, Victor e a criatura finalmente se encontram nas geleiras. E algo se revela: ambos fogem para as montanhas. Ambos são solitários. Ambos carregam uma dor que o outro não compreende — ou compreende demais.
E o que Victor vê quando olha para a criatura? Não apenas sua criação, mas sua própria alma exposta. A criatura é tudo o que ele recusa em si: a feiura que não quer admitir — não física, mas moral —, a solidão que finge que é escolha, a fúria que esconde atrás da racionalidade.
Negar a criatura é negar a si mesmo. E, no entanto, ele insiste em não reconhecer o reflexo.
O capítulo doze mudou tudo. A criatura começa a narrar sua própria história, e é impossível não a ouvir, como quem ouve uma criança.
Ela descreve sua chegada ao mundo como um bebê gigante e desorientado. Aprende sozinha: o calor do fogo, a dureza do chão, a fome, a sede. Observa a família da cabana e aprende a linguagem, os afetos, a música. É uma "educação às escondidas", como a de tantas crianças que aprendem o mundo pela fresta da porta.
O reflexo na poça d'água é o momento da queda. A criatura não sabe, de início, que é "monstro". Ela aprende isso ao se ver e entender a diferença estética dos demais. O espelho d'água é a primeira vez que ela se enxerga com os olhos do mundo. E o que vê? A prova de que nunca será aceita.
Esta foi talvez a percepção mais dolorosa de toda a leitura.
A criatura tenta ser boa. Ajuda a família da cabana — corta lenha à noite, escondida, apenas para aliviar o trabalho deles. Faz o bem sem esperar nada em troca. Mas, quando finalmente se revela, é rejeitada com horror.
O mundo diz: "Você é monstro." A criatura resiste, tenta provar que não. Mas o mundo insiste. E, diante da insistência, chega o momento em que ela pensa: "Já que sou monstro para todos, serei monstro de verdade. Pelo menos assim serei coerente."
É a profecia autocumprida da rejeição. Transformam-te em monstro à força, e depois apontam: "Vês? Sempre foi monstro." Não era. Mas tornou-se. E essa transformação forçada é talvez mais trágica do que se tivesse nascido má. Porque nascer mal é destino; tornar-se mal por desespero é assassinato da alma cometido pelo mundo.
Ao longo de toda a narrativa, Victor busca justificativas para sua ausência. "Não acreditariam em mim." "Me chamariam de louco." "Não posso provar."
São justificativas verdadeiras — de fato, ninguém acreditaria. Mas isso as torna boas? Não. Apenas as torna confortáveis para ele.
Victor é o "deus que não serve". Não porque seja mau, mas porque é fraco. E a fraqueza, quando se tem poder, é talvez pior que a maldade. O deus mau pelo menos age. O deus fraco omite-se. E a omissão, no caso de Victor, custa vidas. O deus ausente é o pior dos deuses porque deixa o mundo entregue à própria sorte e ainda assim espera ser invocado.
A criatura e a humanidade estão presas à mesma pergunta que não leva a lugar nenhum. "Por que eu nasci? Por que me fizeste?" Estas são as perguntas da criatura. São as perguntas de toda criança abandonada. Mas são perguntas que não têm resposta — e, mais importante, a resposta não mudaria nada.
Se Victor dissesse à criatura "criei-te porque queria ser adorado", ela deixaria de sofrer? Não. A resposta não restaura, não cura, não preenche o vazio. Perguntar a um Deus criador que não responde é o mesmo que este Deus não existir.
Talvez a pergunta correta seja: o que eu farei de mim? Como vou me construir? Qual ética e moral me servem? Esta é a virada existencialista. Se não há criador que responda, se não há destino escrito, se não há sentido dado de fora — então a responsabilidade recai inteira sobre nós.
O conhecimento traz consigo uma amargura que seca as pessoas, mas, até que a morte nos encontre, o sonho do bem, o desejo da vida, a esperança, fica lá — latente. Todos nós somos, no fundo, uma caixa de Pandora.
A caixa de Pandora, na mitologia, continha todos os males do mundo. Quando aberta, eles escaparam. Mas no fundo da caixa, depois de todos os males, restou a esperança. O mal está solto no mundo, mas a possibilidade do bem permanece conosco, escondida, íntima, inalienável. Enquanto vivermos, ela está lá. Só a morte a leva.
Terminada a leitura, lembrei-me de Dom Quixote — esse outro ser que o mundo chama de louco.
A criatura pergunta: "Quem me fez? Por que me fez assim?" Quixote pergunta: "Que herói posso ser, apesar de tudo?" A diferença é a diferença entre a pergunta errada — que prende ao passado, ao criador ausente — e a pergunta certa, que projeta para o futuro, para a auto invenção, para a ética escolhida.
Quixote é cercado de iniquidades que o acusam de louco. Mas persiste. Mesmo derrotado, mesmo ridicularizado, mesmo apedrejado, ele continua tentando ser o herói que escolheu ser. Não é uma resposta para todos. É uma resposta para quem já aprendeu a fazer as perguntas certas.
Mary Shelley escreveu Frankenstein aos 19 anos, grávida, exilada, depois de uma vida de perdas. O livro que nasceu daquele pesadelo é, na verdade, um tratado sobre a solidão, a responsabilidade e o preço de criar algo e abandoná-lo à própria sorte.