Miguel de Cervantes · Dom Quixote de la Mancha
Dom Quixote é lido há quatro séculos como a comédia de um fidalgo que enlouqueceu de tanto ler livro de cavalaria. Não é isso, ou não é só isso. Nos capítulos XXIII a XXXVIII da primeira parte, Cervantes arma algo bem mais duro: faz o leitor rir do louco e, enquanto ele ri, vai mostrando um mundo em que todos os personagens sãos negociam a própria decência a troco de vantagem. Ao fim do trecho, a conta se inverte. A loucura do fidalgo aparece como a única forma disponível de sustentar a dignidade, e a sanidade dos outros, como o nome polido do cálculo.
Cervantes humaniza seus personagens pelo avesso: revela-os aos poucos por suas contradições morais, não por suas virtudes. É o contrário do romance de cavalaria, onde o herói mantinha uma retidão de uma peça só. Aqui os personagens crescem à medida que decaem, e o primeiro a decair é Sancho. No capítulo XXIII ele já quer ficar com as moedas de Cardenio, e monta a justificativa na hora: se ninguém as reclama, são legitimamente suas.
Seis capítulos depois, a coisa piora de um jeito que não dá para relevar. Diante da possibilidade de receber vassalos, Sancho responde: "Que me importa lá que os vassalos sejam negros! O que tenho a fazer é carregar com eles para a Espanha e tratar de passá-los a quem der mais patacos". Não há disfarce nenhum aí. Seres humanos viram mercadoria em uma frase, e quem a diz é o camponês pobre, o personagem de quem o leitor menos esperaria. Cervantes está dizendo algo desagradável e preciso: a lógica da exploração não é privilégio de quem manda. Ela é aprendida por baixo, e é aprendida rápido, assim que aparece a chance de subir.
Dom Quixote também não sai limpo. Ele endurece, passa a exigir submissão e não tolera ser contrariado. "Não te metas em repreender meus desatinos" é frase de déspota, ainda que vestida de nobreza cavalheiresca. Guardo isso para o fim, porque muda de sentido quando se entende o que ele está protegendo. Por ora basta registrar: nem o idealista escapa. Cervantes não poupa ninguém.
Dos capítulos XXXII a XXXVI, a estalagem funciona como um resumo do mundo. Todas as classes convergem ali, e todas revelam a mesma gramática: princípio cede a interesse, sempre, e sem muito ruído de consciência.
Doroteia domina a retórica cavalheiresca melhor do que o próprio Dom Quixote — só que ela não acredita em nada daquilo. Usa a linguagem como ferramenta para recuperar Fernando, e sua encenação da princesa Micomicona transforma dor pessoal em espetáculo útil. Cardenio, que é o cavaleiro da triste figura de verdade, busca vingança e chama isso de honra ferida. O Cura e o Barbeiro disfarçam de cuidado médico a vontade de restaurar a ordem social. Cada um tem densidade psicológica própria, e cada um faz exatamente a mesma coisa.
O mais revelador é o desfecho dessas linhas. Todos perdoam. Fernando perdoa Cardenio, Doroteia aceita Fernando, os maus feitos são esquecidos em troca de vantagem imediata. Não é generosidade, é liquidação de estoque. É a moral do mercado aplicada aos afetos, com o amor e a honra postos à mesa de negociação como qualquer outro ativo.
A partir do capítulo XXXVII Cervantes vira o tabuleiro, e vira com discrição, o que torna a jogada ainda melhor. Dom Quixote deixa escapar que conhece a realidade escondida atrás dos arranjos dos outros. Ele sabe. E, sabendo, escolhe permanecer na fantasia, porque na fantasia há mais nobreza disponível do que no acordo que se costura ao seu redor.
Isso desmonta a leitura psiquiátrica do personagem. Não é loucura como doença, é loucura como escolha, e escolha informada. A citação aristotélica do capítulo XXXVIII, dar a cada qual o que lhe é justo, sela o argumento: o louco maneja a ética clássica com precisão enquanto os sãos praticam o utilitarismo mercantil sem nem perceber que o praticam. Dom Quixote não é discípulo obediente de Aristóteles. Ele usa a filosofia como arma contra o mundo que tem pela frente.
E a profecia que ele anuncia no início — que veio ao mundo por altos desígnios de Deus, para ressuscitar nesta safada época do ferro a antiga idade de ouro — deixa de soar ridícula depois de tudo o que se viu na estalagem. Ele estava certo sobre o diagnóstico. O que a narrativa demonstra, capítulo a capítulo, é exatamente a época de ferro que ele denunciou.
Volto agora ao autoritarismo de Dom Quixote, porque ele não é o defeito que parece à primeira vista. Ouvir Sancho, naquele ponto da narrativa, significa aceitar a lógica utilitarista. Dialogar com a chamada realidade significa contaminar-se pelo cinismo dos que a administram. E descer moralmente, Cervantes deixa claro, é caminho de mão única — ninguém na estalagem volta atrás.
A recusa de escutar é o preço que ele paga para não negociar. Custa caro e o torna insuportável em várias passagens, mas é coerente. Enquanto todos se agitam nas transações morais da estalagem, Dom Quixote dorme. É a imagem mais eloquente do trecho inteiro: o único que não participa do leilão é o que está fora dele, literalmente ausente, e essa ausência preserva o que os outros já venderam.
Sua fantasia, portanto, não é fuga. É laboratório — o único lugar em que a idade de ouro ainda pode ser testada.
Cervantes não faz sermão. Não há em nenhum ponto uma voz que explique ao leitor o que ele deve concluir. A crítica ao utilitarismo se faz pela construção: monta-se um mundo, deixa-se que ele opere, e ao final o leitor percebe que passou trezentas páginas rindo do único personagem que não estava à venda.
É aí que a comédia mostra o que era. Não é livro engraçado com fundo filosófico, é denúncia da mercantilização das relações humanas construída com o material da comédia. A escolha é deliberada e é eficaz: Cervantes faz o leitor amar os protagonistas antes de revelar suas contradições, de modo que a decepção com eles espelhe a nossa própria ambiguidade moral. Ninguém sai desse livro com a consciência limpa, e é esse o objetivo.
Dom Quixote não é vítima da loucura. É o único que leu corretamente a doença moral do próprio tempo e escolheu a fantasia como última trincheira da dignidade — sabendo que era trincheira, sabendo que era fantasia, e sabendo que ali não havia mais para onde recuar.