Socorro Acioli · A Cabeça do Santo
Samuel chega a Candeia para cobrar uma dívida. Fez uma promessa à mãe no leito de morte e vai cumpri-la — cético, pragmático, endurecido pela vida dura do sertão, sem nenhuma intenção de encontrar coisa alguma além do homem que procura. Para ele é acerto de contas, e é assim que trata a viagem. Só que o livro está fazendo outra coisa, e é uma busca por identidade disfarçada de vingança. Essa foi a chave que organizou para mim a leitura inteira, porque coloca A Cabeça do Santo exatamente no caminho oposto ao de um livro que eu tinha lido pouco antes.
Dantès também parte para uma cobrança, e também se transforma no caminho. Mas ele se constrói acumulando. Ganha erudição na prisão, ganha fortuna na ilha, ganha um título, uma máscara, uma rede de agentes, um método. Cada capítulo acrescenta uma camada ao homem que ele está fabricando, até que o marinheiro de Marselha desapareça por completo dentro do Conde. É uma construção por armadura, e Dumas a executa com precisão de engenheiro.
Samuel faz o percurso inverso. Ele não ganha nada — vai perdendo. Perde a dureza com que chegou, perde a certeza sobre o que veio fazer, perde a descrença que trouxe de casa como se fosse bagagem essencial. Chega armado e vai se desarmando. E o que sobra ao final não é um homem maior, é um homem exposto, que era exatamente o que ele passou a vida evitando ser.
Há aqui uma tese sobre o que significa tornar-se alguém, e ela é o contrário da que o romance de aventura nos ensinou. Vingança constrói personagem, mas constrói para fora, em camadas de proteção. Só o desarmamento constrói por dentro.
Nisso Samuel se aproxima de Dom Quixote, e a aproximação é estrutural, não decorativa. Nenhum dos dois tem plano. A jornada é impensada e casual, e são os encontros e os erros que fazem o trabalho de transformação que nenhum projeto faria. Ambos se constroem tropeçando.
A diferença está no material. Quixote tropeça em nome de uma glória que ele mesmo inventou, com a cavalaria como roteiro e a idade de ouro como destino. Samuel não tem roteiro nenhum. Tropeça nas pedras de uma estrada de chão, sem grandeza, sem público, sem sequer saber que está sendo transformado. É a mesma mecânica com o brilho retirado — e Socorro Acioli acerta ao retirá-lo, porque a construção de si não precisa de moinhos de vento para acontecer.
Foi comparando com Mary Shelley que entendi o que há de mais difícil neste livro. A criatura de Frankenstein tem um instante exato de reconhecimento: vê o próprio reflexo na poça e sabe, de uma vez, quem é aos olhos do mundo. É catarse pura, um antes e um depois separados por um segundo.
Samuel não tem esse segundo. Não existe em A Cabeça do Santo a cena em que ele se vê e compreende. O reconhecimento é processo, dilui-se por todo o livro, acontece em pequenas rendições sucessivas que nem ele percebe enquanto ocorrem. E isso é muito mais difícil de escrever do que uma epifania, porque a epifania resolve o problema numa página e o processo exige que a autora sustente a transformação sem nunca declará-la.
É também mais fiel ao que acontece com as pessoas. Ninguém se reconhece numa poça d'água. Reconhecemo-nos aos poucos, e quase sempre tarde demais para chamar aquilo de revelação.
Ao fechar o livro, lembrei-me de Saramago, de O Conto da Ilha Desconhecida. O homem pede ao rei um barco para encontrar a ilha desconhecida, e a resposta que o livro constrói é que a ilha desconhecida é ele mesmo — que é preciso sair de si para se ver, como quem precisa deixar a ilha para enxergá-la.
Samuel faz isso sem saber. Vai a Candeia atrás de um homem e encontra a única coisa que não estava procurando. E o que me parece decisivo é que nenhum dos dois livros entrega a chegada. Saramago termina no batismo do barco, antes da viagem. Acioli termina com Samuel já outro, sem que nada tenha sido concluído. O achado, nos dois casos, é a disposição de partir.
Falta dizer o que sustenta tudo isso, que é o achado narrativo do livro. Refugiado dentro da cabeça abandonada de uma estátua de Santo Antônio, Samuel se torna o confessor involuntário das mulheres de Candeia, que sussurram aos pés do monumento seus anseios de amor. O descrente vira santo casamenteiro por acidente, oráculo de uma fé que não possui. Ele não busca a fé; a fé o escolhe, e o escolhe justamente por ele estar no lugar errado na hora errada.
Socorro Acioli poderia ter usado isso para ironizar a devoção popular, e é o que muitos autores fariam. Não faz. A fé aqui não é julgada nem explicada — é tratada como matéria, com uma ternura que a mostra pelo que ela é na vida daquela gente: força motriz, sustentação, e sobretudo identidade coletiva. As mulheres de Candeia não são pitorescas. São pessoas cujo desejo precisa de algum lugar para ir.
É isso que aproxima o livro do sertão real e o afasta do exotismo. O sagrado e o profano convivem sob o mesmo sol sem que ninguém precise escolher entre eles, e a autora tem a paciência de deixar que convivam.
A Cabeça do Santo começa com uma premissa fantástica e termina numa constatação bastante sóbria: a gente não se descobre, a gente se constrói, e a construção é feita de tropeços que só fazem sentido olhados de trás para frente. Samuel não encontra a si mesmo em Candeia. Ele se fabrica lá, sem perceber, enquanto pensava estar fazendo outra coisa.