L.C.Kraemer
Quem me ensinou a amar os livros foi meu pai. Ele já morreu. Não há muito mais a dizer sobre isso, e não é por falta de assunto — é que tudo o que está neste site começa ali, e algumas dívidas a gente prefere pagar em silêncio.
Na faculdade, por volta de 1994, li Sartre, Kierkegaard e Teilhard de Chardin. Era a idade certa para os três, e eu não fazia a menor ideia do que estava sendo construído em mim. Olhando de hoje, acho graça na combinação: Sartre negando que exista qualquer sentido dado de fora, Kierkegaard exigindo o salto, Teilhard tentando reconciliar espírito e evolução. Três respostas incompatíveis para a mesma pergunta, recebidas todas ao mesmo tempo, por um sujeito que ainda não sabia que teria de escolher.
Durante muitos anos li assim: sem anotar nada. Abria o livro, fechava o livro, seguia adiante. Como se a leitura fosse coisa que acontece e passa.
A necessidade de registrar veio muito depois, e veio de dois livros: Dom Quixote e Cem Anos de Solidão. Não consegui ler nenhum dos dois sem papel e lápis ao lado. Não por dificuldade — por excesso. São livros que produzem mais pensamento do que a memória aguenta segurar, e a certa altura percebi que estava perdendo coisa demais no caminho. Comecei a anotar por defesa, para não deixar escapar.
Foi então que descobri o que a anotação era de fato. Anotar não é resumir. É responder. Quando escrevo na margem, estou discordando de alguém, ou concordando com espanto, ou registrando que uma frase me pegou desprevenido e eu não estava pronto. O livro diz, eu respondo. É por isso que este lugar se chama Diálogos com a Literatura: o que está aqui não são resenhas, são as minhas respostas.
Das anotações de Dom Quixote nasceu o primeiro ensaio deste site. As de Cem Anos de Solidão eu perdi, em algum lugar entre cadernos e livros, e é pouco provável que apareçam. Não faço disso drama: acontece.
Também não guardo os livros. Escolho a tradução com cuidado, leio, anoto e dou. Não me parecem feitos para decorar prateleiras acumulando pó, e se eu guardasse todos não sobraria espaço para a vida que justamente eles me ensinam.
Isto tem uma consequência, e o site inteiro é feito dela: escrevo do que ficou, não do que está na estante. Não há aqui conferência de página nem verificação de edição.
Mas o que fica não é resíduo. A leitura não substitui quem eu era, nem me troca por outro — ela acrescenta. Cada livro abre mais uma dimensão de possibilidade, mais um modo de existir que eu não alcançaria sozinho e que passo a carregar junto com o meu. Dou o livro e fico com isso, que não ocupa prateleira nenhuma. Talvez seja essa a razão de tudo: não trocar de vida, mas caber em mais de uma.
Trabalho com direito há mais de trinta anos. Passo os dias diante de processos que reduzem a miséria humana a autos, prazos e dispositivos, e conheço bem a distância que existe entre uma sentença e a dor que a originou. Isso me estragou para certas leituras e me afiou para outras.
Quando Dostoiévski põe Raskólnikov diante de Porfíri Petróvitch, eu reconheço o interrogatório. Quando Machado tranca meia Itaguaí na Casa Verde pelo critério de um homem só, eu reconheço o critério — e reconheço a facilidade com que uma comunidade inteira aceita ser classificada. Não leio literatura para escapar do que faço. Leio, cada vez mais, para entender o que faço.
Os livros que comentei aqui são muito diferentes entre si. Os diálogos, não. Falam quase sempre da mesma coisa: quem somos, e a brevidade disso.
Não é um tema que eu tenha escolhido. É o que aparece, seja qual for o livro. Quixote inventando uma idade de ouro para ter onde caber. Meursault condenado por não sentir o que se esperava dele. A criatura de Mary Shelley perguntando por que foi feita, a um criador que fugiu. Raskólnikov erguendo uma teoria inteira só para fabricar um chão. Samuel se descobrindo aos tropeços numa estrada de chão que não levava a lugar nenhum. São versões diferentes de uma pergunta só.
E há um espanto que não me larga, e que talvez seja o motor de tudo isto. A existência é brevíssima vista de fora e infinita vista de dentro. Entre a concepção e a extinção cabe um infinito, e é dentro dele que essas personagens todas se debatem — nós junto com elas, cada um no seu.
Não sou professor de literatura e não vivo da academia. Não tenho formação na área, não escrevo para pares e não devo satisfação a nenhuma escola. Falta-me a bibliografia de quem estudou para isto, e sobra-me a liberdade de não precisar citar quem não li, de discordar de consenso sem pedir licença e de mudar de ideia no meio de um ensaio — como mudei a respeito de Raskólnikov, com quem comecei irritado e terminei em reconhecimento.
Sou uma pessoa com muitas perguntas. É a descrição mais honesta que consigo dar de mim como leitor, e é também o que me mantém sempre pensando no próximo livro — o que talvez seja apenas outro modo de dizer que nenhuma das perguntas se resolveu.
Se alguma destas páginas fizer você querer conversar comigo, o endereço está logo abaixo. A conversa é exatamente o ponto.