Machado de Assis · O Alienista

Em Itaguaí, a razão perdeu o juízo

Por que "O Alienista" é mais atual do que nunca — Publicado em 28 de setembro de 2025

Machado escreveu em Itaguaí a mais eficiente sátira brasileira sobre o que acontece quando alguém recebe o poder de definir o que é normal. Não é uma novela sobre loucura. É uma novela sobre a autoridade que classifica — e sobre a facilidade assustadora com que uma comunidade inteira aceita ser classificada.

À primeira vista, Simão Bacamarte é o herói de seu tempo. Cientista renomado, movido por um amor à ciência que o narrador faz questão de chamar de puro e desinteressado, funda a Casa Verde para estudar e curar os males da alma. Missão nobre, e é justamente aí que Machado arma a farsa: quanto mais nobre a missão, menos alguém pergunta pelo critério. E o critério de Bacamarte, quando finalmente aparece, é de uma simplicidade aterrorizante. É louco quem se desvia da linha reta da sua própria e impecável razão.

Nota de leitura A loucura, em Itaguaí, é qualquer desvio da linha reta da razão de quem tem o poder de definir a linha.

O que vem depois é lógica pura levada até o fim, e é onde o livro fica genuinamente perturbador. Bacamarte não trapaceia. Ele apenas aplica seu critério com rigor, e o rigor basta para encher a Casa Verde. Um homem que esbanja dinheiro é louco. Uma mulher que acredita em pragas é louca. A vaidade, a generosidade, a paixão, a dúvida — cada traço de humanidade viva vira sintoma a estudar e conter. Rimos, e o riso é a armadilha: a certa altura percebemos que estamos rindo de uma sociedade em que a única forma de ser considerado são é não ter personalidade alguma.

Quando o revolucionário senta na cadeira

Machado não para na crítica à ciência, e a segunda metade é ainda mais desconfortável que a primeira. Quando o povo de Itaguaí se rebela contra a tirania da razão, o autor entrega uma caricatura precisa dos ciclos de poder. A revolta do barbeiro Porfírio ecoa as grandes revoluções da história com todos os seus adereços: discurso inflamado, promessa de liberdade, entusiasmo popular.

E então vem o que sempre vem. Instalado no poder, o revolucionário descobre que a lógica do antigo tirano era, afinal, bastante conveniente. Não há aqui nenhuma traição dramática, nenhum momento de corrupção da alma — há apenas a constatação prosaica de que classificar os outros é útil para quem manda, seja quem for que mande. Machado dispensa a psicologia. Basta trocar o ocupante da cadeira e observar.

Nota de leitura Instalado no poder, o revolucionário descobre que a lógica do antigo tirano era bastante conveniente.

O papel que sobra para nós

O que há de mais poderoso na novela, no entanto, é o lugar reservado ao leitor. Assistimos à escalada de um déspota entre o riso e o desconforto, mas assistimos também a algo pior: a passividade de uma sociedade que, por medo ou por conveniência, se torna cúmplice da própria opressão. Ninguém em Itaguaí é obrigado a colaborar. Todos colaboram.

Ler O Alienista hoje é ser interrogado por perguntas que não envelheceram. Quem tem o direito de definir o que é normal. Onde termina a diferença e começa a doença. E a mais incômoda de todas, que é a que fica: até onde vai o nosso conformismo diante de injustiças travestidas de ordem e de ciência.

A novela permanece radicalmente atual porque diz uma coisa que preferimos não ouvir. A maior loucura não é a de quem está trancado na Casa Verde. É a de aceitar, sem contestar, quem definiu as regras do juízo.